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História da Navegação nacional no Museu Nacional do Mar…

Diorama do Centro Histórico de São Francisco do Sul

Comandada por Conny Baumgart, a confecção da maior maquete em escala do Brasil (1:75), representa o centro histórico de São Francisco do Sul aproximadamente em 1930. Todas as casas, ruas e logradouros são representados, assim como a orla, o cais, alguns dos afamados navios da época e inclusive os personagens mais conhecidos, hoje já pertencentes ao folclore da cidade. Para executá-la com perfeição, o artista entrevistou idosos, pesquisou fotografias antigas e documentos da época. A maquete começou a ser confeccionada em 1999, devendo estender-se até o ano de 2008. Conny tem contado com o auxílio de colaboradores, mas nenhum como Amauri Ferreira, funcionário da Petrobras, que há anos participa como voluntário do projeto.

Sala das Canoas

Com quantos paus se faz uma canoa?

As canoas são embarcações monóxilas, ou seja, feitas a partir de um único tronco de madeira escavado. Junto com as balsas, são as mais antigas embarcações utilizadas pelo homem. Intimamente relacionadas à invenção da navegação, existiram em todos os continentes e foram utilizadas por praticamente todos os povos primitivos. Aparentemente toscas, sobrevivem há milênios graças à facilidade construtiva e ao seu poder de se moldar às necessidades.

Hoje as canoas americanas (principalmente brasileiras), polinésias, africanas e asiáticas são as que mais se destacam. No Brasil, representam a adaptação de modelos de origem indígena ou de outros continentes, principalmente da África, adequados às necessidades de cada uma das baías, enseadas, praias, ilhas, estuários e cursos d’água do litoral e interior deste país continental.

Origem e construção

Para navegar, ou seja, atravessar uma superfície líquida sem se molhar, o homem pré-histórico provavelmente uniu vários pedaços de árvores, criando uma balsa. Depois, escavou um tronco, criando a canoa, primeiro barco verdadeiro. Dependendo do avanço tecnológico, das árvores disponíveis e das necessidades específicas, diferentes tipos de canoas foram sendo criados em todo o mundo.

O homem construiu as primeiras canoas escavando troncos grossos com o auxílio de fogo e machados de pedras, em um penoso processo que trazia como recompensa sólidas embarcações. Onde a natureza proporcionava a ocorrência de grandes árvores dotadas de grossas cascas, o homem aprendeu, através do calor, a desprender a camada externa do caule, de modo a construir canoas como quem dobra uma folha de papel. Na Amazônia e nas florestas do Oriente, esta técnica até hoje é empregada.

Descobertos os metais, tornou-se muito mais fácil a escavação de toras de madeira. Tal evolução permitiu que o homem aperfeiçoasse suas ferramentas e trabalhasse a madeira de modo a obter peças com seções esbeltas, o que era impossível de ser feito com fogo e pedras. Surgiram as ripas e as tábuas e, com elas, o desmembramento dos barcos em estruturas autônomas, como as cavernas cobertas e os cascos.

Nesta nova configuração, os troncos reduziram-se às quilhas das modernas embarcações de madeira. Estavam criados os barcos propriamente ditos, dos quais derivam os modernos transatlânticos de aço, os imensos navios de transporte, de guerra ou de passageiros.

Canoas do São Francisco

No rio São Francisco, que atravessa Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe, ocorrem diversos tipos de canoas. Várias delas apresentam especificidades de casco e vela que as colocam entre as mais importantes do Brasil. Velas quadrangulares duplas ou mesmo triplas, dotadas de espichas, proporcionam a estes barcos muito leves ótima dirigibilidade e velocidade. Os cascos são esguios e muitos deles apresentam curiosa terminação na extremidade da proa. Próximo à foz, são chamadas de taparica, como a exposta aqui nesta sala. Derivam das canoas baianas, das quais herdaram o fundo chato, detalhes da posição e fixação dos bancos e o tosamento (recorte ou desbaste) do tronco.

Enormes canoas foram utilizadas para transporte de passageiros e produtos diversos ao longo do São Francisco. Para melhorar as condições de conforto de tripulantes e passageiros, muitas foram dotadas de uma espécie de cabine junto à proa das embarcações. Nasceram assim as canoas de tolda do rio São Francisco, das quais restam, ainda pouquíssimos exemplares, um deles exposto na Sala dos Barcos do Rio São Francisco, no Museu Nacional do Mar.

Chalana

Embarcação típica da região do Pantanal Matogrossense, a chalana resulta de uma mescla de influências indígena, africana e portuguesa. Tem proa e popa levemente alteadas, arrematadas em linhas retas, e apresenta um profundo recorte longitudinal da madeira nessas extremidades. Navega pelos rios, pelas lagoas e áreas alagadas da região entre Brasil e Bolívia, carregando um ou dois pescadores. Com a proibição da pesca do jacaré, que era fisgado com lanças, e o controle da captura de certos peixes, a chalana está desaparecendo da paisagem pantaneira. No seu lugar surgem barcos simplificados feitos de tábuas ou embarcações industriais de alumínio, ambos utilizados principalmente no transporte de turistas.

O Nome

Os primeiros europeus a ouvirem a denominação canoa foram os membros da expedição pioneira de Cristóvão Colombo, que descobriu a América em 1492. Os tripulantes da frota mais famosa da história, formada pelas naus Santa Maria, Pinta e Nina, teriam registrado o nome ouvido dos nativos do Novo Mundo. Os índios – assim apelidados, porque os espanhóis acreditavam ter chegado às Índias Orientais – chamavam de canoas suas embarcações esculpidas em um só pau.

O Almirante Antônio Alves Câmara, o primeiro estudioso a se interessar pelo fabuloso patrimônio naval dos rios, lagoas e mares do Brasil, escreveu no seu livro Ensaio sobre as Construções Navaes Indígenas do Brasil, de 1888, que a palavra tem origem americana, das caraíbas. Confirma que o nome foi citado por Colombo e os primeiros viajantes da América, e ensina que a palavra é semelhante na maioria das línguas: canoa em português, espanhol e italiano; canot em francês, canoe em inglês, kahn em alemão, kane em dinamarquês e kana em sueco.


Canoas baianas

O Almirante Alves Câmara considera as canoas baianas as “rainhas das canoas do Brasil”. A denominação não deixa de ser verdadeira. Derivadas de africanas, grandes troncos de mais de 11 metros, escavados com absoluta precisão, criam formas de extraordinária beleza estética, com fundos chatos e proas e popas lançadas bem avante do barco. No Recôncavo Baiano, estas maravilhosas embarcações são dotadas de grandes mastros e velas latinas (a mesma das caravelas) e de um tipo de bolina que foi muito utilizado pelos holandeses ao longo dos séculos XVII e XVIII. Tantos detalhes náuticos conferem às canoas baianas especiais condições de navegabilidade.

Este tipo de barco ocorre do sul da Bahia até Alagoas e seu desenho influencia todas as canoas nordestinas. Quase sempre é pintado segundo um modelo padronizado característico, onde prevalece o preto (muitas vezes piche) cobrindo o fundo, as extremidades e o centro da embarcação. As áreas restantes permanecem sem pintura, ou são coloridas de amarelo, vermelho, azul e verde. Entre o Recôncavo Baiano e a região do Morro de São Paulo estão os exemplares mais sofisticados deste tipo de canoa.

Canoas de borda lisa

Do Rio Grande do Sul ao Rio de Janeiro ocorrem várias canoas chamadas de borda lisa, isto é, resultantes apenas da escavação dos troncos e da fixação dos bancos. Apresentam mais semelhanças do que diferenças, estando estas no tosamento (recorte ou desbaste) da proa e da popa e nos “ganchos”, acréscimos que elevam as extremidades das canoas do Rio de Janeiro. É o caso da Max, exposta na sala Amyr Klink. A Ilha de Santa Catarina (SC), a Baía de Paranaguá (PR), a região da Juréia (SP) e a Baía da Ilha Grande (SP) são os principais pontos de ocorrência das canoas de borda lisa.

Encontro

O padre Leonardo Nunes, jesuíta que chegou ao Brasil com Tomé de Souza e Manoel da Nóbrega, relatou o encontro com os índios brasileiros em suas canoas, próximo ao porto de São Vicente: “Eram sete e cada uma tinha trinta ou quarenta remeiros, às quaes correm tanto que não há navio por ligeiro que seja que se tenha com elas…”. Frei Vicente do Salvador, frade franciscano que foi o autor da primeira História do Brasil, editada ainda no século XVII, afirmou que as embarcações usadas pelos índios naturais da terra “…são canoas de um pau só, que lavram a forro e ferro; e há paus tão grandes que ficam depois de cavadas com dez palmos de bocas de bordo a bordo, e tão compridas que remam a vinte remos por banda”.

Canoa na visão de Hans Staden

“Existe lá um tipo de árvore a que chamam de Igá-Ibira. As cascas dessa árvore desprendem-se de cima até embaixo num único pedaço, e, para tanto, eles erigem uma proteção especial em torno da árvore, de forma a que se desprenda inteira. Em seguida pegam a casca e levam-na da montanha até o mar. Aquecem-na com fogo e curvam-na para cima na frente e atrás, mas antes disso amarram no centro pedaços de madeira no sentido transversal, para que não se deforme. Assim fazem canoas onde até trinta deles podem ir à guerra. As cascas têm uma polegada de espessura, cerca de quatro pés de largura e quarenta de comprimento. Remam com essas canoas rapidamente e viajam até onde quiserem. Quando o mar está revolto, puxam as canoas para a praia até que o tempo volte a ficar bom. Não vão mais do que duas milhas mar adentro, mas viajam por longas distâncias ao longo da costa.”

Texto escrito em 1556 por Hans Staden, publicado no livro Portinari Devora Hans Staden, da Editora Terceiro Nome (1988). O alemão passou quase dez meses refém de índios no sul do Brasil, sob a ameaça constante de ser morto e devorado.

Chacreiras

As chacreiras chegam a ter mais de 12 metros de extensão e são dotadas de grandes porões onde as mercadorias eram transportadas nas lagoas do Rio Grande do Sul, em especial nas lagoas Mirim e dos Patos. Hoje estão, virtualmente extintas, reduzidas a pouquíssimos exemplares.

Depois de escavados, os grandes troncos, a partir dos quais se construíam as chacreiras, eram cortados e recebiam tábuas no centro e na borda. Isto ampliava em muito as dimensões do casco da embarcação. Construída a partir de um tronco de cedro, a Biondina, chacreira exposta no Museu Nacional do Mar, tem mais de 11 metros de comprimento e grande capacidade de carga.

Canoa bordada

Nas regiões Sul e Sudeste, centralizadas por Santa Catarina, ocorrem diversos tipos das belas canoas bordadas, assim chamadas porque, nas bordas dos troncos escavados adicionam-se, com grande maestria, tábuas que ampliam a borda livre e aumentam a força e velocidade dos remos. Estas canoas são pintadas com cores vivas e inserem-se entre as embarcações plasticamente mais expressivas do mundo.
Com algumas variações, ocorrem do Rio Grande do Sul até o Rio de Janeiro, mas praticamente deixaram de ser construídas, porque os órgãos ambientais proibiram a extração da madeira necessária à sua confecção. Com isso, corre-se o sério risco de se perder o “saber fazer” destas embarcações, conhecimento passado de pai para filho ao longo das gerações.

Pesca da Tainha

As tainhas são pescadas com redes de arrasto e tarrafas (redes individuais arremessadas com maestria por pescadores profissionais e amadores). No litoral catarinense, a pesca da tainha acontece no inverno, entre abril e junho, quando elas sobem o litoral em grandes cardumes, procurando os estuários para se reproduzir. Nessa época transformam-se em importante fonte de renda e alimento para as comunidades onde persiste a pesca artesanal, embora os cardumes estejam menores a cada ano, seja em função do crescente interesse da frota pesqueira industrial pela espécie, como pelo desconhecimento do ciclo de vida desses peixes.

Marambaias ou vigias

A pesca da tainha utilizando grandes redes de arrasto – os famosos arrastões – é uma das mais interessantes do Brasil. Nela o marambaia ou vigia, pescador que identifica a presença e os movimentos de grandes cardumes, desempenha papel vital. Com olhos treinados, avista as tainhas a distância e dá o sinal com o chapéu, um pano branco ou até no grito, para que seus companheiros efetuem o cerco. A partir daí, a luta é contra o tempo e a força do mar.

O barco, a famosa canoa bordada, tem de fazer uma meia-lua para cercar o cardume. Os remadores e os lançadores da rede precisam ser rápidos, sem perder o rumo, nem deixar enrolar a rede. Feito o cerco, é hora de puxar a rede cheia de tainhas até a areia. No início do inverno, é possível acompanhar diariamente o espetáculo da pesca de arrastão na beira de diversas praias ao sul do Brasil, principalmente em Santa Catarina.

As tainhas

Esses peixes muito apreciados são, no entanto, pouco conhecidos. As tainhas (Mugil brasiliensis) vivem em costões rochosos, praias e manguezais em toda a região litorânea do Brasil e podem chegar a um metro de comprimento e pesar seis quilos. A fase conhecida das suas vidas é aquela da migração, que começa em março e pode se estender até agosto, quando buscam os estuários para se reproduzir. Desovam em rios e lagoas, próximas à costa, e podem viver nesses ambientes até alcançarem 30 centímetros. Reúnem-se em cardumes e seguem para o mar aberto, onde passam a viver, no fundo dos oceanos, a fase de suas vidas ainda pouco conhecida pelos homens.

Variedade

De uma maneira geral, pode-se afirmar que as canoas do interior do país guardaram mais as suas origens indígenas no formato dos cascos, nos remos, na ausência de velas e na falta de pinturas vivas. No litoral, de onde os índios foram quase que totalmente expulsos ainda no século XVI, prevaleceram modelos africanos, europeus ou asiáticos. Das praias do sul até as do norte, existem diversas variedades, como as canoas bordadas e as de borda lisa do sul/sudeste, as chacreiras do Rio Grande do Sul, a canoa baiana, considerada a “rainha das canoas brasileiras” pelo almirante Antônio Alves Câmara, as canoas costeiras e as montarias do Maranhão.

Também no interior do Brasil é grande a variedade. Na Amazônia, destaque para as canoas indígenas construídas com cascas de árvores ou escavadas em troncos, estas, apresentadas na Sala da Amazônia, aqui no Museu Nacional do Mar. No Pantanal, as famosas chalanas são parte do cotidiano de milhares de pessoas. As do rio São Francisco, coloridas e velozes, estão entre as mais conhecidas do Brasil. Elas são apresentadas na Sala do rio São Francisco, espaço específico para estas canoas singulares.

Maior diversidade de canoas está no Brasil

Já utilizadas pelos indígenas no litoral, na Amazônia, no Pantanal e nos rios do interior brasileiro, muito antes do Descobrimento, as canoas brasileiras receberam novas influências e detalhes com a chegada dos portugueses e depois dos escravos africanos. As anteriores a 1500 eram impulsionadas por varejões e remos, já que as velas e os mastros foram as primeiras adaptações importantes nas canoas brasileiras, trazendo os lemes e as bolinas em muitas delas, como conseqüência.

Muitas adequações aconteceram ao longo dos tempos, em função de condições diferentes de mar, ventos, pesca, madeiras e cargas transportadas. Assim surgiu uma enorme variedade deste tipo de embarcação ainda encontrada em todo o Brasil. Podemos resumir essa diversidade em quatro famílias principais: canoas do litoral sul/sudeste, do nordeste, do norte e do interior, estas representadas principalmente pelos barcos da Amazônia e do Pantanal.

O Brasil é o país com a maior variedade de canoas do mundo. Algumas das mais belas, imponentes e sofisticadas canoas do planeta são brasileiras. Muitas das canoas brasileiras ainda navegam a remo e a vela, mas uma grande parcela, de todos os tipos e dimensões, tem recebido motores, inclusive de popa. Em quase todas as regiões, as canoas tradicionais vêm sendo substituídas por barcos de alumínio ou fibra, perdendo-se assim técnicas e conhecimentos milenares, sintetizados em cada um dos barcos tradicionais, todos atualmente ameaçados de extinção.

Canoa do Alagoas

Nas lagoas que dão nome ao estado de Alagoas ainda existem exemplares de canoas específicas daquele complexo lagunar. Derivam, como todas as canoas do nordeste, das canoas baianas, com boa dosagem das do rio São Francisco. Como atuam em águas protegidas, são mais leves e delicadas. Sua principal característica é o profundo tosamento (recorte ou desbaste) longitudinal, que lhe confere uma forma suave e esguia. O fundo é chato e, a proa e a popa, bastante alteadas. A proa, trabalhada como a da canoa do rio São Francisco, sempre apresenta prolongamento curto e formato rústico.


A coleção de canoas do Museu Nacional do Mar está em exposição em outros espaços do museu, como a Sala Amyr Klink, Sala da Amazônia, Sala da Bahia e Sala do Rio São Francisco.

Modelistas e Artesãos

Conny

O modelista dos barcos e dos passarinhos, como ficou conhecido, Conny é um dos mais completos artistas do gênero no Brasil. Antes de executar uma peça, estuda todos os seus detalhes. Longe de prejudicar, tanto preciosismo empresta muita espontaneidade a sua obra: seus pássaros parecem ter vida e os personagens de seus dioramas incorporam-se totalmente aos temas e cenários. Conny é catarinense de Rio do Sul, com passagens por São Paulo e pela Alemanha. Depois de aposentado, escolheu São Francisco do Sul para viver, tornando-se um de seus moradores mais característicos, sempre acompanhado pela esposa Charlotte, artista do bordado. Trabalha boa parte do dia no Museu Nacional do Mar, onde se dedica à conclusão da maquete do Centro Histórico.

Nome completo: Conny Baumgart
Local e data de nascimento: Rio do Sul (SC), 05/08/1927
Endereço: Rua Francisco Mascarenhas, 3.102, Paulas
São Francisco do Sul – SC – CEP 89.240-000
Fone: (47) 444 0808 / 444 1868
E-mail: museudomar@ilhanet.com.br

Ênio

Certo dia, andando pela praia, Ênio percebeu que um tronco trazido pelo mar tinha a forma de um barco. Desde então, dedica-se a esculpir embarcações abstratas, sugeridas pela sua imaginação ou pelas madeiras que param em suas mãos. As obras deste artista catarinense, natural de Itajaí, têm sido admiradas no Brasil e no exterior.

Pela extraordinária força, espontaneidade e dinamismo de sua obra, foi escolhido para ornar o hall do Museu Nacional do Mar com várias peças de sua autoria.

Têca

Talvez por ser cozinheiro em barcos de pesca, Têca consiga transformar suas miniaturas na mais pura arte popular, de primeiríssima qualidade. Seus modelos retratam a convivência diária com a vida no mar e com as embarcações que reproduz no próprio barco ou quando em terra, de memória. Esse artista natural de Navegantes (SC) traz para sua obra os mastros, guinchos e corrimãos; as redes, as luzes, as gaiutas e as cabines: o seu mundo. As peças que compõem o seu dia a dia e que migram para seus modelos correspondem precisamente aos existentes nos barcos originais. Começa o trabalho pela quilha e pelo cavername, passando depois para o costado e o convés. Tudo sem olhar desenhos ou croquis: intuição, fruto da longa interação com o cotidiano dos barcos de pesca e com o ambiente marítimo.

Nome completo: Pedro José da Costa
Local e data de nascimento: Navegantes (SC), 03/08/1944
Endereço: Rua Manoel Zeferino Teixeira, 444 – Bairro São João
Itajaí – SC – CEP 88.305-160
Fone: (47) 348 1186 / (47) 9955 2451

Braga

Um dos mais destacados artesãos navais do Brasil, Braga é um menino vibrante nascido há quase 70 anos em São Luís do Maranhão. Reconhecido e valorizado em sua terra, faz barcos como quem brinca, sempre sorridente, sem olhar desenhos nem anotações: é de memória que reproduz todos os tipos de embarcações maranhenses com notável perfeição. Joga com as cores nos costados e nas velas e com o movimento na inclinação dos mastros e nas linhas do estaiamento. Braga executa também modelos figurativos do bumba-meu-boi, a mais famosa manifestação do folclore de seu estado. Braga atende encomendas, tratando ele próprio de enviar os trabalhos a vários cantos do Brasil e do exterior. A coleção pertencente ao Museu Nacional do Mar, é a maior exposição da obra do artista fora do Maranhão.

Nome completo: Raimundo Nonato Braga

Laurinho

Ainda jovem, Laurinho já é um modelista completo. Apaixonado por barcos, estuda seus modelos, procurando conhecer e reproduzir com exatidão cada detalhe dos barcos históricos que modela, sem se preocupar com o tempo que a tarefa exija. A coleção exposta no Museu Nacional do Mar levou quase dez anos para ser confeccionada. Seu grande desejo é conseguir um espaço para expor sua obra na cidade natal de Laguna, onde vive. Constrói seus modelos em casa, nos momentos de folga do trabalho como técnico da Companhia Catarinense de Águas e Saneamento (Casan). Sua paixão pelo mar extrapola o modelismo: com o veleiro Paz na Terra enfrenta os mares difíceis da Barra de Laguna.

Nome completo: Luiz Lauro Pereira Júnior
Local e data de nascimento: Laguna (SC), 22/03/1964
Endereço: Rua Jornalista Antônio Bessa, 96, Mar Grosso
Laguna – SC – CEP 88.790-000
Contato: Fone (48) 647 0890

Heitor

Por ter se negado a aceitar qualquer pagamento pelas peças expostas nesta sala, Heitor recebeu o título de benemérito do Museu Nacional do Mar. O artista resolveu doar os modelos, que levou vários anos para confeccionar, por entender que o Museu é o melhor lugar para a sua criação. Atua na área de informática do Banco do Brasil, em Brasília, e transforma-se em modelista nas horas vagas. Já passou por embarcações mundiais, mas hoje prefere trabalhar em modelos de barcos tradicionais brasileiros, como botes do Ceará, cúteres do Maranhão, saveiros e canoas. Heitor sonha em reproduzir a coleção Alves Câmara, conjunto de modelos de embarcações brasileiras confeccionado no início do século XX, em exposição no Museu Naval do Rio de Janeiro.

Nome completo: Carlos Heitor Chaves
Local e data de nascimento: Niterói (RJ), 24/08/1958
Endereço: Rua F, casa 14, Condomínio Vivendas Friburgo
Brasília (DF) – CEP 73.070-013
Fone: (61) 485 8179
E-mail: heitorchaves@bol.com.br


André

O modelista André montou seu projeto de vida em função de sua arte. É carioca, viveu em Curitiba e estabeleceu-se em Florianópolis. Conheceu e atuou com o mestre Kelvin no Museu Naval do Rio de Janeiro. Estudioso e rigoroso com sua obra, reproduz barcos históricos, como a trirreme romana exposta no hall deste Museu. A preciosa coleção de barcos tradicionais catarinenses – botes, canoas e baleeiras – também em exposição foi confeccionada especialmente para esta sala. Sério e versátil, André atualmente produz em Florianópolis, de onde aceita encomendas para o Brasil e o exterior.

Nome completo: André Azevedo da Silveira
Local e data de nascimento: Rio de Janeiro (RJ), 02/08/62

João Quirino

Natural de Armação do Itapocorói, um dos mais tradicionais núcleos de pescadores de Santa Catarina, desde criança João Quirino convive com os barcos. Canoas, batelões, baleeiras, botes e bateiras eram os assuntos das crianças enquanto brincavam de jogar futebol, pescar siri, caçar passarinho. Mais tarde, já na juventude, João viveu um tempo embarcado. Movido por impulso, um dia se deu conta de que estava moldando os barcos com os quais havia convivido. Até hoje não segue plantas nem desenhos. Transforma pedaços de madeira em cascos, adiciona cabines, mastros e amarrações, cria algumas das mais belas traineiras do Brasil. Atualmente vive de sua arte e produz peças sob medida e por encomenda.

Nome completo: João Quirino de Souza
Local e data de nascimento: Penha (SC), 09/03/1947
Endereço: Rua Henrique Sotério da Silva, 165, Armação do Itapocorói
Penha – SC – CEP 88.385-000
Fone: (47) 345 9032

Rui

O trabalho de Rui cresceu movido pelo desenvolvimento da indústria pesqueira e da construção naval em Itajaí. Um dos primeiros modelistas profissionais de Santa Catarina, especializou-se em confeccionar barcos encomendados pelos estaleiros, ou que integravam as frotas de pesca da cidade. Aos poucos diversificou sua produção, criou modelos próprios, montou ateliê, contratou funcionários, sempre mantendo a qualidade expressa em cada detalhe de sua obra. Hoje, suas peças circulam pelo Brasil e exterior. Experiente, executa obras de apurado acabamento e fidelidade, baseado em plantas e desenhos técnicos da arquitetura naval. Está habilitado para aceitar encomendas do mais alto grau de complexidade.

Traineiras da Baía da Ilha Grande

Um dos lugares mais bonitos do mundo, a imensa Baía da Ilha Grande abriga dezenas de recantos, centenas de praias e cidades como Parati e Angra dos Reis. Entre águas tranqüilas, cercadas da exuberante mata atlântica, existem pequenos povoados de pescadores, onde a vida gira em torno do mar. Nessa região privilegiada, cresceu a tradição de se fabricar modelos de barcos. Em Parati, o comércio de artesanato naval é o mais forte do Brasil. São muitos os artesãos que criam miniaturas de escunas, canoas e traineiras das mais diversas características. Coloridos ou não, mais ou menos fiéis aos originais, grandes ou pequenos, caros ou baratos: são dezenas de lojas que vendem modelos destinados principalmente à decoração, alguns, verdadeiras jóias da arte popular brasileira.

Canoeiros

Pescadores aposentados de várias localidades de Santa Catarina encontraram um jeito bem singelo de se manter ligados ao antigo ofício de navegar e consertar barcos. Com a paciência que a idade permite, dedicam parte do tempo produzindo miniaturas de canoas. Em muitos casos, eles começaram a atividade a pedido de filhos, netos, vizinhos e amigos. Deram-se tão bem que transformaram o passa-tempo em nova alternativa de trabalho. Os autores dos belos modelos expostos no Museu Nacional do Mar residem em São Francisco do Sul, Armação do Itapocorói (Penha), Itajaí, Ganchos (Governador Celso Ramos) e Laguna. As peças refletem a longa vivência dos antigos pescadores com o mar: são moldadas de forma intuitiva em madeira similar à das originais, com proporções impecáveis e esmero nos detalhes.

Presidiários

Já é quase uma tradição: barcos e objetos marinhos estão sempre presentes nos locais onde produtos fabricados por detentos são comercializados. Não deve ser à toa que as peças tendem sempre para a forma livre, sem qualquer compromisso com as proporções e os elementos dos originais. Em compensação, apresentam sempre farto cordoamento e grandes velas, sonhadoras e soltas ao vento. O conjunto é vivo e dinâmico, conferindo valor especial a estes barcos singulares. Alguns dos presídios catarinenses continuam incentivando a produção do artesanato naval que, muitas vezes, tem sido a única alternativa de sustento para os seus autores, quando ganham a liberdade.

O Ceará em pequenos volumes

As miniaturas de jangadas e as garrafas de areia expostas no Museu Nacional do Mar são umas das mais significativas expressões da arte popular cearense. As pequenas jangadas foram confeccionadas por antigos jangadeiros e revelam o profundo conhecimento dos artesãos sobre o assunto. Eles reproduzem com precisão o formato diferenciado de cada um dos troncos, o mastro e a verga emendados, a vela, os cabos e amarrações. A cuia utilizada para molhar a vela e melhorar o desempenho da embarcação com o vento também foi esculpida com fidelidade.

Já as garrafas de areia instigam a curiosidade de qualquer um: como é possível colocar num espaço tão limitado paisagens tão precisas? Fazer os desenhos sobrepondo camadas de areia, através do orifício da garrafa, é tarefa das mais delicadas, feita com o auxílio de instrumentos que lembram pequenas colheres de haste muito longa. Com elas, o artesão deposita aos poucos as areias coloridas, retiradas das dunas do Ceará e do Rio Grande do Norte. Por puro capricho da natureza, poucas cores são artificiais.

Sala da Pesca Industrial

Chineses são os que mais pescam no mar

A cada ano, perto de 200 milhões de toneladas de pescado são capturadas por todo o mundo. Dos mares saem cerca de 65% e de outros ambientes aquáticos, 35%. O Brasil, com seus quase 9 mil quilômetros de litoral e 32 mil quilômetros de vias navegáveis, contribui com algo em torno de 1 milhão de toneladas. Desse total, praticamente a metade se refere à pesca extrativa marinha, mas o país sequer aparece entre os dez primeiros colocados nas estatísticas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Dados de 2000 colocam a China na primeira posição, com 15 milhões de toneladas, seguida pelo Peru, com 10,5 milhões de toneladas, e pelo Japão, com 5 milhões. São países que tornam o Pacífico o maior palco da pesca marinha (63%). Muito longe surgem o Atlântico, com 27%, e o Índico, com 10%.

Recurso quase esgotado

Levantamento da FAO aponta que entre 71% e 78% dos estoques de peixes estão parcial ou inteiramente explorados e que o manejo dos cardumes torna-se urgente. Por se tratar de uma atividade extrativista, a pesca deve ser feita de maneira sustentada, respeitando-se as regras biológicas e naturais, mas essa é uma tarefa bastante complicada, porque centenas de variáveis impostas pela natureza estão em jogo. Quando um barco parte para o mar, não se sabe o que vai capturar, nem a quantidade ou a qualidade do produto. Muitas vezes nem se sabe o tempo que ficará longe da terra. A localização dos cardumes depende de uma série de fatores meteorológicos e das correntes marinhas, sem contar que muitas espécies são migratórias.

Os mais pescados no Brasil

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais e Renováveis (Ibama) lista 153 espécies exploradas pela pesca extrativa marinha brasileira. Entre estas, as quase 60.400 toneladas de sardinhas, as 41.600 toneladas de corvinas, as 29.600 toneladas de pescadas e as 23 mil toneladas de bonitos-listrados responderam por 34% dos peixes capturados no litoral brasileiro em 2002.

Sardinhas

Pelo menos quatro espécies de sardinhas têm valor econômico no Brasil: a sardinha, a sardinha-verdadeira, a sardinha-laje e a sardinha-cascuda, sendo as duas primeiras as mais importantes. A sardinha (Harengula jaguana) ocorre em maior quantidade na Bahia e no Rio de Janeiro. Habita locais de fundos arenosos e pode alcançar cerca de 15 centímetros de comprimento. Já a sardinha-verdadeira (Sardinella brasiliensis) se concentra no Rio de Janeiro, São Paulo e em Santa Catarina, onde é uma das espécies economicamente mais representativas, respondendo por quase 40% da produção nacional. Atinge até 24 centímetros de comprimento e vive em águas costeiras.

Pescadas

Cinco espécies de pescadas são economicamente importantes no Brasil. A principal é a pescada-amarela (Cynoscion acoupa), que responde por quase 78% das 29.600 toneladas capturadas em 2002. É encontrada em águas de pouca profundidade, próxima das desembocaduras dos rios, por isso as maiores capturas ocorrem no Pará e no Maranhão. Também é peixe de água doce e pode alcançar um pouco mais de um metro de comprimento e pesar dez quilos. As outras quatro espécies são conhecidas por pescada, pescada-branca, pescada-cambuçu e pescada-olhuda, todas do gênero Cynoscion.

Bonitos-listrados

Santa Catarina é o estado que mais captura bonitos-listrados no Brasil. Das 23 mil toneladas pescadas em 2002, 60% saíram do litoral catarinense. Pode atingir até 60 centímetros de comprimento e até 800 gramas de peso. Também é do litoral de Santa Catarina que sai a maior quantidade de corvina do país, o segundo peixe mais capturado em território nacional, descrito na sala dos Botes deste Museu. Do total de 41.600 toneladas, 36% viviam nos mares deste estado.

Saborosos por natureza

Alguns peixes são considerados nobres não apenas por serem raros, mas porque suas carnes rendem pratos deliciosos. Badejos, garoupas e meros, representantes da família Serranidae, se destacam. Pelo menos cinco espécies de atuns, peixes da família Scombridae, também. Idem para pelo menos uma dúzia de espécies de linguados das famílias Bothidae e Soleidae.

Badejos, garoupas e meros

Os badejos (Mycteroperca microlepis e Mycteroperca rubra) medem cerca de 70 e 80 centímetros de comprimento respectivamente, sendo a segunda espécie a mais comum no litoral catarinense. A garoupa (Epinephelus morio) atinge 70 centímetros e pesa cerca de 12 quilos. Assim como os badejos, costumam viver em fundos rochosos, desde a costa até mais de 100 metros de profundidade. Já o mero (Epinephelus itajara) é o maior representante dos Serranidae, com cerca de 2,70 metros, podendo ultrapassar os 400 quilos. Prefere águas costeiras e regiões estuarinas.

Atuns

Os cobiçados atuns alcançam dois metros de comprimento e pesam mais de 100 quilos. São peixes, que vivem em cardumes a mais de 100 metros de profundidade, pescados com linha e anzol especiais. Os atuns propriamente ditos (Thunnus obesus e Thunnus thynnus) são muito parecidos, sendo que o primeiro possui nadadeira peitoral longa, que ultrapassa o comprimento da primeira nadadeira dorsal, enquanto a do segundo é curta. Outras espécies do mesmo gênero Thunnus, como a albacora-branca e a albacora-laje, também encontradas em Santa Catarina, são computadas nas estatísticas como atuns.

Linguados

Santa Catarina é o estado brasileiro que mais captura linguados, respondendo por 64% do total de 3.300 toneladas pescadas em 2002. São pelo menos uma dúzia de espécies, que podem atingir um metro de comprimento e pesar cerca de 12 quilos. Estes peixes se caracterizam por viver no fundo do mar – por isso são capturados com redes de arrasto – e ter os dois olhos voltados para um lado da cabeça (lateral-dorsal), enquanto o lado lateral-ventral está em contato direto com o fundo do mar.

Os couraçados habitantes do mar

Como o nome indica, os crustáceos (do latim crusta, que significa carapaça dura) são animais invertebrados caracterizados por possuir uma couraça, geralmente, muito resistente como tegumento, ou exoesqueleto, constituído por uma substância chamada quitina. A maioria das espécies é de água salgada, com destaque para os camarões, os siris, os caranguejos e as lagostas. O corpo quase sempre é formado por um cefalotorax (cabeça e tórax fundidos) e um abdome. Pertencem ao filo dos artrópodes, aqueles que têm patas articuladas, no caso cinco pares, que partem dos segmentos do tórax e do abdome. Interessante notar que os órgãos excretores desses animais estão na cabeça e que se abrem nas bases do segundo par de antenas ou do segundo par de maxilas.

Camarões

Os camarões representam 57% das 49.500 toneladas de crustáceos capturados na pesca extrativa marinha brasileira. Também dominam a maricultura no país, respondendo por 82% de um total de 73 mil toneladas de peixes, crustáceos e moluscos produzidos em cativeiro. As espécies de maior valor econômico são o camarão verdadeiro, o camarão-rosa, o camarão-branco e o camarão-sete-barbas.

Caranguejos e siris

Muita gente confunde caranguejos e siris, mas é bem fácil distingui-los: os siris têm corpo mais achatado e patas traseiras largas como remos, ao contrário do caranguejo, com corpo avolumado e patas traseiras pontiagudas. Isso porque o siri adaptou-se melhor ao nado. Economicamente, os caranguejos são mais importantes, representando 25,5% do total de crustáceos capturados na pesca extrativa marinha.

Animais de corpo mole

Os moluscos formam o segundo maior grupo de invertebrados, com mais de 90 mil espécies, a maioria aquática. Como o nome sugere – mollis significa mole em latim –, todos os indivíduos deste filo apresentam corpo mole, em geral protegido por uma concha dura calcária, produzida pelo manto que recobre o corpo. Existem três classes principais: os gastrópodes, onde estão os caramujos de conchas espiraladas ou em forma de pirâmide; os bivalves, dos mariscos e ostras, com conchas divididas em duas partes; e os cefalópodes dos polvos e lulas, que escondem pequenas conchas em seus corpos.

Show de cores e formas

Os moluscos gastrópodes (significa ter o estômago no pé) são alguns dos seres mais espetaculares e exóticos do meio aquático, com suas conchas de formas e cores variadas, que dão a esses animais seu devido valor, principalmente entre colecionadores, já que sua carne não tem importância econômica. A maioria das conchas se desenvolve em espiral alta ou baixa, retorcida no sentido horário, e a parte mole do corpo acompanha essa simetria. Também existem conchas planas, como no caso dos pateliformes.

Concha em dobro

Os moluscos bivalves, com suas duas conchas, mantém a diversidade de cores e formas típica do grupo. No entanto, alguns dos seus representantes despertam a atenção econômica mais por sua carne do que pela beleza das conchas: os mariscos representam 86% das 12.800 toneladas de moluscos produzidos em cativeiro no país, praticamente todos saídos de Santa Catarina, também maior produtor de ostras, com 1.600 toneladas ao ano. Esses dois animais pertencem à classe dos lamelibrânquios, assim chamados devido ao aspecto lamelar de suas brânquias.

Da pré-história aos dias atuais

A pesca foi uma das primeiras atividades desenvolvidas pelo homem primitivo na sua busca por alimento. Na pré-história os peixes eram cercados em armadilhas e apanhados com pauladas, método que evoluiu para o arpão de madeira e, mais tarde, para o anzol feito de ossos e espinhos, atados a cipós. Redes semelhantes às de hoje já eram utilizadas em tempos remotos por nossos antepassados.

No Brasil, a pesca era praticada há milhares de anos, com equipamentos rudimentares. Os índios utilizavam redes, flechas e arpões com pontas de diferentes tamanhos, para cada espécie de peixe, até que os europeus lhes apresentaram o anzol, a linha, a vara e as iscas.

Tradição e modernidade convivem atualmente nos mares, rios e lagoas do Brasil. Os pescadores enfrentam as águas em embarcações artesanais ou industriais. Nos tradicionais barcos de madeira, praticam a pesca artesanal. Os barcos maiores, de madeira ou metal, capturam o pescado através da pesca industrial.

Hoje a pesca é uma atividade praticada em larga escala em todo o planeta, seja comercial, de subsistência, competitiva ou de lazer. O desenvolvimento tecnológico trouxe ferramentas que facilitaram e agilizaram o ofício, como imagens de satélites, radares, sonares, varas mais leves, linhas cada vez mais finas e resistentes, modernas carretilhas e iscas artificiais. Apesar dessa evolução, muitas comunidades litorâneas e ribeirinhas mantêm seu jeito próprio e rudimentar de capturar peixes.

Pesca artesanal

Com fins comerciais, utiliza embarcações de pequeno e médio portes, geralmente de madeira, motorizadas ou não, que suportam pequenos e médios volumes de pescado, capturados em redes adequadas para cada espécie. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelos pescadores artesanais, esse tipo de pesca forma a maior porção da frota brasileira, com cerca de 25 mil barcos e, praticamente, responde pela metade do total de capturas no Brasil. A tendência é que os profissionais se organizem em pequenos grupos, cooperativas, colônias e associações para superar seus obstáculos.

Os pescadores enfrentam sérios problemas de diminuição dos cardumes e de queda nos preços dos pescados nos períodos de safra. Outro grande problema é o desrespeito aos períodos de defeso, quando a pesca de determinadas espécies é proibida para que elas se reproduzam e garantam a sobrevivência do próprio pescador.

Pesca artesanal em Santa Catarina

A pesca artesanal ainda é o meio de vida de milhares de famílias ao longo do litoral de Santa Catarina. De Itapoá a São Francisco do Sul, ao norte, até Laguna e Araranguá, no sul do estado, passando por Barra Velha, Penha, Navegantes, Itajaí, Porto Belo, Florianópolis e Garopaba, as colônias pesqueiras são fortes e organizadas. Os pescadores se unem em associações para decidir formas de trabalhar e de negociar os preços dos peixes junto aos atravessadores. A cooperação entre eles não se resume aos negócios. O companheirismo e a solidariedade se estendem durante o trabalho, quando os homens em terra não medem esforços para auxiliar os que estão no mar.

Colonos anfíbios

Quando os açorianos vieram para Santa Catarina, não tinham o hábito da pesca, pois os mares do Arquipélago dos Açores são muito profundos, o que dificulta a pesca artesanal. Viviam praticamente da agropecuária, mas em terra brasileira se depararam com um litoral baixo, com ótimas condições para a pesca e uma incrível variedade de pescado. Diante da necessidade e das circunstâncias, aqueles homens se transformaram em “colonos anfíbios”, como os chamou Franklin Cascaes, um dos grandes intérpretes dessa cultura. Eles passavam parte do ano na lavoura e parte no mar, plantando até a chegada de grandes cardumes, como os de tainhas, de maio a agosto.

Como surgiu a rede de pesca

Um dos maiores estudiosos da pesca e do pescador brasileiros, Câmara Cascudo explicou a provável origem das redes, o utensílio mais utilizado na captura de pescados. As mais primitivas já encontradas, pré-helênicas e do Egito antigo, teriam sido encontradas ainda com a chumbada da pré-história. Foram feitas de linho ou de cânhamo, cultivados na época lacustre, no período neolítico médio. O chumbo foi utilizado na Idade dos Metais, quando se trabalhava o cobre e o latão, bem anteriores ao bronze. Ele escreve:

“Quando apareceram as redes de pesca? Creio que foram anteriores aos anzóis. A rede de caça parece-me anterior à de pesca, aquela sugerindo esta. As armadilhas iniciais para pesca foram as barragens e diques nos lugares estreitos das correntes fluviais.

Teriam aparecido quando o homem (ou a mulher) dominava a arte de tecer juncos, enfim, fazer a vasilha trançada precursora de vaso cerâmico. Mais racional obstruir um caminho habitual de peixes do que inventar o anzol ou armar a barragem. Os viajantes da África no século XIX vêem barragens, armadilhas, arpoagem, flechas, redes, mas poucos anzóis, assim como no continente americano. E ainda na Austrália, Polinésia, Malanésia, Índia, China e seu mundo. Pesca coletiva antes da individual. Depois teriam vindo as redes menores para um ou mais pescadores.

Também existe o problema das primitivas redes, porque ninguém conseguiu precisar a época em que a cestaria nasceu nas mãos humanas. De neolítica, até poucos anos, foi empurrada para o epipaleolítico, onde os vestígios são notórios e documentais.”

Pesca industrial costeira

Explora recursos concentrados em determinadas áreas, capturados de forma mecanizada. Utiliza embarcações mais autônomas, que podem permanecer longe da costa por longo período, com motores de alta potência, cascos de metal ou madeira. É o tipo de pesca industrial mais representativa no Brasil, já que o país não possui muitas embarcações próprias para a pesca industrial oceânica, dotadas de sofisticados equipamentos, inclusive capazes de beneficiar o pescado a bordo. O parque industrial pesqueiro do Brasil é composto, em 2004, por aproximadamente 300 empresas e 1.600 embarcações.

Pesca traiçoeira

Os barcos da pesca industrial são equipados com redes de cerco, algumas com mais de dois quilômetros de comprimento e 60 metros de altura, com as quais se fecha o cerco em torno do cardume assim que ele é avistado. São recolhidas fechadas para bordo, onde o pescado (sardinhas, cavalinhas e outros peixes miúdos) segue para ser gelado no porão do barco. Com apenas duas voltas ao redor de um cardume, pode-se juntar mais de 10 toneladas de peixes. O problema é que a malha fina da rede captura tudo que surge pelo caminho, inclusive animais que não interessam economicamente e que, por isso, são despejados mortos no mar.

Na captura de camarões, são utilizadas redes de arrasto em forma de funil, onde o pescado fica preso durante o arrasto no fundo. Caso grave são as chamadas redes de parelha, quando dois barcos arrastam a mesma rede, o que é proibido por lei.

Traineiras

Embarcações mais utilizadas na pesca industrial brasileira, as traineiras entraram no país durante a década de 1940, a partir da evolução dos motores. Os primeiros modelos foram importados de Portugal e da Espanha. Mais tarde, na década de 1970, começaram a chegar dos Estados Unidos e do Japão. Trata-se de uma embarcação de tamanhos variados, com cabine, porão, motor e, na maioria dos casos, com um pequeno barco a bordo, descido ao mar no momento do cerco, para auxiliar no desdobramento da rede.

O estudioso português Octávio Lixa Filgueiras explica que a primeira traineira tem origem cantábrica (norte da Espanha) e que o nome provém de traina, “a arte de arrastar para a terra”, para a qual foi criada. Surgiu no fim do século XIX, a partir das formas das canoas baleeiras populares naquela região.

Cidade das traineiras

A maior frota de traineiras do país está em Itajaí, cidade portuária de Santa Catarina onde se concentram muitas das empresas que exploram a pesca industrial no estado. Atracados no porto pesqueiro do centro histórico, esses barcos descansam entre uma e outra viagem ao longo do Itajaí-açu, formando belíssimos cenários junto aos antigos casarões que margeiam o maior rio catarinense. Das idas ao mar, as embarcações retornam carregadas de tainhas, sardinhas, atuns, camarões, corvinas… Além da fartura no litoral e do excelente porto natural, a cidade conta com a melhor estrutura pesqueira do estado: dezenas de estaleiros com mão-de-obra qualificada, fábricas de gelo próximas aos atracadouros, postos de combustíveis náuticos e indústrias de processamento do pescado que segue para todo o país e exterior. As heranças de portugueses, italianos e alemães que colonizaram a cidade estão por todas as partes, com especial atenção à belíssima igreja matriz, com suas linhas de inspiração gótica.

Quem mais pesca no Brasil

A maior quantidade do pescado brasileiro é capturada nas regiões Nordeste, Norte e Sul. Conforme dados do Ibama de 2002, que somam os números da pesca marinha e continental, mais a aqüicultura, das 976 mil toneladas capturadas naquele ano, os nordestinos contribuíram com 267.800 toneladas, os nortistas com 257.800 toneladas e os sulistas com 254.200 toneladas. O sudeste apareceu com 158.900 toneladas e o centro-oeste, com 37.200 toneladas.

Pará e Santa Catarina foram os estados que mais se destacaram, o primeiro com 159 mil toneladas (16,3%) e o segundo com 150 mil toneladas pescadas (15,4%). Em terceiro lugar estava o Rio Grande do Sul, com 77.300 toneladas, seguido da Bahia, com 75.300 toneladas, do Amazonas (70.800 toneladas) e do Rio de Janeiro (70.300 toneladas).

Santa Catarina foi o estado que mais contribuiu para a pesca marinha no Brasil, com 118 mil toneladas das 513.600 toneladas capturadas nos mares em 2002, ou seja, 23%. Os peixes mais capturados no estado, em comparação com o segundo colocado, em toneladas, foram:

Peixe
Quantidade
Segundo estado
Quantidade
Corvina
15.098
Rio Grande do Sul
11.424
Bonito-listrado
13.880
Rio de Janeiro
4.676
Sardinha-verdadeira
10.392
Rio de Janeiro
10.339
Abrótea
6.603
Rio Grande do Sul
1.051
Cabra
4.233
Rio Grande do Sul
1.662
Cação
3.324
Rio Grande do Sul
1.710
Merluza
3.065
Rio de Janeiro
428
Peixe-sapo
2.779
Rio de Janeiro
1.445
Raia
2.337
Rio de Janeiro
278
Sardinha-laje
2.320
Rio de Janeiro
836
Linguado
2.134
Rio Grande do Sul
506
Palombeta
1.870
Ceará
1.172
Pescadinha-real
1.592
Rio Grande do Sul
1.429
Pescada
1.105
Alagoas
532
Papa-terra
1.008
São Paulo
866
Cavalinha
888
São Paulo
311
Garapau
677
São Paulo
77
Congro-rosa
373
Rio de Janeiro
281
Guaravira
254
São Paulo
221
Cherne
195
Rio de Janeiro
170
Corcoroca
128
Rio de Janeiro
64
Enguia
68

* Fonte: Ibama (2002)

Além do mar

A pesca extrativa não é apenas marinha. Ela também é continental, praticada em ambientes de água doce e rendeu ao Brasil 226.700 toneladas de pescado em 2002. Enquanto Santa Catarina é o estado que mais contribuiu para a pesca marinha, Amazonas e Pará se destacaram na continental. Os dois estados juntos – o primeiro com 66.500 toneladas e o segundo com 58.200 toneladas – responderam por 55% do total de peixes retirados dos rios brasileiros.

O curimatã foi o peixe de água doce mais pescado (29.900 toneladas), seguido pelo piramutaba (23.100 toneladas), do jaraqui (12.900 toneladas), da dourada (12.700 toneladas), do pacu (10.800 toneladas), da pescada (10.400 toneladas) e do tucunaré (10 mil toneladas).

O rei dos rios

Considerado o rei dos rios, o tucunaré (Cichla Ocellaris) é um peixe originário da Amazônia, que muito contribui para aumentar os números da pesca extrativa continental brasileira, com sua saborosa carne e seu corpo robusto. Alcança cerca de 60 centímetros de comprimento e oito quilos. Encontrado hoje em dia em quase todas as regiões, tornou-se símbolo da pesca esportiva do país. Agressivo e, por isso, predador nato, é recomendado para locais com superpopulação de outras espécies, como represas, açudes e tanques. A mancha escura na cauda, semelhante a um olho, é sua marca registrada.

Boas de briga

As piranhas chamam mais a atenção por sua impressionante agressividade do que pela contribuição à pesca extrativa continental, apesar de não fazerem feio: em 2002, foi o 23º peixe de água doce mais capturado (2.400 toneladas), de um total de 96 espécies. A piranha propriamente dita (Serrasalmus piraya), a piranha-vermelha (Serrasalmus nattereri) e a piranha-branca (Serrasalmus rhombeus) atingem uma média de 30 centímetros de comprimento e são igualmente predadoras, ao contrário dos demais peixes da família dos caracídeos. Investem contra qualquer animal que encontram pela frente, inclusive o homem.

Manga para todos os lados

Belém é uma das cidades mais importantes da Amazônia e capital do segundo maior estado brasileiro, o Pará, primeiro colocado na pesca extrativa, com 159 mil toneladas de peixes capturados nos seus mares e rios em 2002. Em 1616, o explorador português Francisco Caldeira Castello Branco fundou o povoado, comandando uma missão religiosa e militar cujo objetivo era conquistar a disputada foz do rio Amazonas, a 160 quilômetros da linha do Equador. A ocupação começou pelo bairro da Cidade Velha, que guarda um rico patrimônio arquitetônico neoclássico, herança da era da borracha. Mais da metade dos 718 quilômetros quadrados da cidade é formada por ilhas. Destaque para as mangueiras que ornamentam a cidade, amenizam o calor e deliciam os que gostam da fruta. Destaque também para “ver o peso”, o tradicionalíssimo mercado de Belém, situado à beira-rio, para onde convergem os produtos de toda a região amazônica.

Frágil imensidão

O sucesso da pesca depende da existência do pescado saudável, que necessita da saúde de mares e rios. Como tudo na natureza, os ambientes onde a pesca é praticada interagem com os ecossistemas relacionados ao litoral e às áreas ribeirinhas. Portanto, a vida de um influencia diretamente a do outro. Além da grande extensão, a zona costeira brasileira abriga um mosaico natural de alta relevância ambiental, com grandes trechos de mata atlântica, praias, costões, baías, estuários, mangues, dunas e restingas. Ao longo dos rios, alguns muito próximos dos centros urbanos, cresce a preocupação em relação ao despejo de resíduos e ao desmatamento das nascentes e da mata ciliar. No caso do rio próximo ao mar, a foz é alterada pela ocupação das praias e pelos aterros em restingas e mangues.

Vegetação

Tanto no litoral quanto no interior, a saúde da vegetação é fundamental para manter o equilíbrio ambiental de mares e rios. A mata atlântica envolve as encostas da Serra do Mar nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná e Santa Catarina e funciona como um verdadeiro paredão que influencia a vida nas praias, estuários e mangues, próximos à costa. A devastação provocada neste que, ainda, é o ecossistema de maior biodiversidade vegetal do Brasil, vem alterando a vida nos ambientes que dele dependem.

Mangues

Os manguezais têm expressiva ocorrência na zona costeira brasileira, surgindo do Maranhão ao sul. Esses ecossistemas cumprem funções essenciais na reprodução biológica de várias espécies de animais aquáticos que vivem em outras zonas marítimas, Também abrigam cerca de 200 espécies de peixes e são fator fundamental para a estabilidade na intensa dinâmica natural que caracteriza o frágil e rico ambiente costeiro brasileiro.
Toda essa riqueza em recursos naturais e ambientais vem sendo colocada em risco pelo intenso processo de ocupação desordenado.

Estuários

O termo estuário é utilizado para indicar a região interior de um ambiente costeiro onde ocorre a mistura de água doce com água do mar. Este ecossistema é responsável pelo equilíbrio e manutenção de boa parte dos recursos marinhos. São áreas de reprodução, crescimento, alimentação e refúgio para inúmeras espécies de peixes, crustáceos e moluscos, capturados pela pesca artesanal e industrial. Cerca de 70% das espécies potencialmente comercializadas se utilizam do refúgio dos estuários em algum estágio de seu desenvolvimento.

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