Sobre Museus no Brasil

Um panorama dos museus no Brasil

21 de Setembro de 2010 às 12h 00m · Ricardo · Arquivado sob Geral

Os números de visitação dos museus do país dobraram em seis anos (chegando a 33 milhões/ano) muito devido a um esforço político para qualificar os aparelhos culturais brasileiros. Mas como o próprio Ministro da Cultura, Juca Ferreira, afirma: a realidade ainda é dura, apenas 6% brasileiros já adentraram esses espaços

Mariana Fonseca

O Brasil tem hoje 2.970 museus, segundo dados do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). São mais de 190 milhões de itens sob a guarda dessas instituições, que empregam cerca de 25 mil trabalhadores. A boa notícia é que o brasileiro parece estar mais interessado em conhecer esses espaços: dos 15 milhões de visitações registradas em 2003, saltamos para 33 milhões em 2009. O número é considerado significativo pelo diretor do Ibram, José do Nascimento Junior. “Os dados mostram que quando o Estado brasileiro e os governos investem na qualificação das estruturas e do pessoal, a população responde”, garante o diretor, se referindo às iniciativas que ocorreram no período, como a Política Nacional de Museus (em 2003) e a própria criação do Ibram (2009).

Mas a má notícia é que continuamos ainda muito atrasados no quesito equipamentos culturais. Os números estão subindo, porém, o acesso aos museus ainda é bastante restrito em se tratando de um país continental como o Brasil. As instituições com maior índice de visitação recebem entre 300 mil e 800 mil pessoas por ano, como é o caso do Museu da Língua Portuguesa e da Pinacoteca, em São Paulo, e do Museu Imperial, em Petrópolis. “Ainda não passamos do Tratado de Tordesilhas”, resume Junior. Os museus se concentram no litoral e nas regiões Sul e Sudeste do país. “Eles estão nas áreas mais ricas, o que cria uma distorção do acesso à cultura e do direito de memória. Norte, interior do Nordeste e Centro Oeste não participam do volume de museus do país.”

Essa também é a opinião do ministro da Cultura, Juca Ferreira. Segundo ele, os últimos dados revelados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que apenas 6% dos brasileiros já adentraram um museu. “Desde que chegamos ao Ministério estamos tentando qualificar esses espaços, seja no sentido dos acervos, mas também na sua dinâmica funcional. Museus que não abriam sábado e domingo, ou que pelo tipo de regime de funcionalismo público não podiam passar de certa hora etc. Ainda precisamos primeiro ampliar o número de museus para abarcar uma gama de equipamentos necessária para dar conta da memória dos diversos campos identitários da cultura brasileira. E, segundo, estender isso aos museus populares, para que eles reflitam as comunidades. Mas com um grau de realismo grande, diria que ainda estamos numa fase embrionária desse processo.”

E a concentração não é o único desafio. “O Rio de Janeiro concentra muitos museus, mas por outro lado, museus como o Museu de Arte Sacra da Bahia, apesar de ter um acervo qualificado e uma boa estrutura, acabam recebendo uma visitação maior de estrangeiros do que de brasileiros. Não há inserção na vida pedagógica e nem de outros públicos, falta uma política de museus mais complexa.”

Para o ministro, os baixos índices de visitação ainda são um reflexo de certo descaso com museus e bibliotecas. “Esses aparelhos nunca tiveram uma atenção devida no sentido de dotá-los com acervo significativo e de estimular para que façam parte da vida das pessoas, como era feito em outros países. O grau de inserção na vida do brasileiro é muito baixo. Eles só se lembram de museus quando estão viajando pela Europa, México e outros países onde são motivados pelos operadores de turismo. No território brasileiro a visitação é pequena. Além disso, muitos museus são pouco atraentes e não conseguem dialogar com o público.”

E se na Europa os famosos museus como o Louvre, em Paris, e o Prado, em Madri, fazem campanhas para recuperar turistas nacionais que se inibiram com o volume de estrangeiros, por aqui, nossa visitação é 80% nacional, segundo o Ibram. Isso seria positivo se os números não fossem tão baixos. “Ainda não há uma proximidade entre cultura e turismo no país. Quando chegamos ao Ministério, o turismo era praia e festas de rua como carnaval, só de uns anos para cá começamos a pensar o turismo cultural”, explica o ministro.

Para o presidente do Ibram, é necessária uma visão mais abrangente do que esses aparelhos culturais podem representar para as regiões onde estão inseridos. “Os museus fazem parte de um processo de desenvolvimento de cidades. Projetos como ‘O Museu do Amanhã’, no porto do Rio de Janeiro, ou o ‘Cais das Artes’, em Vitória, servem de gancho para reurbanização. E outros formatos como os pontos de memória são grandes articuladores das ações culturais nessas comunidades”, exemplifica Junior.

Eventos internacionais

Segundo informações do Ministério do Turismo, cada pessoa que viaja para assistir a Copa do Mundo traz duas outras de companhia que não vão aos jogos e ficam por conta de conhecer as cidades sedes do evento. De olho nessa possibilidade, o Ibram pretende qualificar melhor os museus e seus profissionais. “Estamos buscando preparar os espaços e seus funcionários. Precisamos de etiquetas bilíngües, áudio-guias etc. Além de preparar os hotéis com mapas que apontem os museus. Todos os países que receberam esses eventos internacionais qualificaram seus equipamentos culturais, deixando um legado. Os eventos nos obrigam a repensar a qualificação dessas cidades para receber os turistas estrangeiros. Brasília, por exemplo, é uma capital que não tem museus que dão uma visão de país como as capitais mundo a fora têm. Temos que nos preparar, a exemplo de Barcelona. Não só com transporte e hotelaria, mas com equipamento cultural.”

Entre os museus com altos índices de visitação no país figura o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) sem fins lucrativos, o espaço depende majoritariamente (70%) de recursos provenientes de renúncia fiscal, de verbas da União e de projetos aprovados via Lei Rouanet. “Essa é a nossa principal fonte de recursos, do restante, 20% são de atividades como a loja do museu, restaurante, cursos, clubes de colecionadores e os sócios; e outros 10% são de convênios federais, para receber recursos diretos”, explica o diretor-executivo do MAM, Bertrando Molinari

O MAM tem 62 anos e recebe até 300 mil visitantes por ano – “nos bons anos”, como define Molinari. “Por sermos um museu de arte contemporânea com uma grade expositiva muito ágil temos uma enorme variação de visitantes. Existem exposições exitosas de público e outras que são exitosas de crítica, mas com menos público. Um ano excepcional é quando atingimos 300 mil visitantes. Atingimos isso quando temos exposições com nomes reconhecíveis, que já são celebridades ou quando ocupamos um espaço maior.”

Segundo Molinari, grandes eventos que ocorrem na cidade, como seria o caso da Copa do Mundo, não necessariamente aumentam o fluxo de turistas no museu. “O interesse cultural é uma coisa específica, a maior parte do público vai procurar entretenimento e não cultura”, avalia. Um terço da visitação do espaço se deve a estudantes de escolas públicas e privadas que são incentivados a conhecer o MAM por meio de programas que o museu fomenta. O restante do público é de estudantes da área de artes, curiosos e interessados em arte moderna. “Acho que esse tipo de interesse cultural é uma coisa específica, percebemos que grandes eventos que atraem turistas a São Paulo não refletem necessariamente na visitação do museu”.

Mas Molinari é otimista, acredita que o público brasileiro está ficando mais desinibido em relação a museus. “Acho que havia um sentimento de não acessibilidade, hoje o público está ficando mais descontraído para frequentar as instituições.” Outro ponto positivo que o diretor do MAM ressalta entre as novas possibilidades na área de museologia estão as mudanças propostas pelo Ministério da Cultura. “A legislação federal está passando por uma revisão. E um ponto que acho fundamental é a criação de uma nova ferramenta de endowment fund, onde uma empresa ou pessoa física pode fazer uma doação e a instituição que recebe pode gerir esse fundo prestando contas apenas dos resultados, não como se presta conta de um projeto. Hoje os projetos são extremamente complexos, existem alíquotas para cada coisa, o que deixa tudo bem difícil. Esse fundo vira um caixa geral que vai financiar as atividades do museu, temos um corpo estável de funcionários que precisa ser remunerado, instalações e acervo que precisam ser preservados e isso é um custo permanente.

Direto da comunidade

O Museu da Maré, que está no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, é um exemplo positivo dos pontos de cultura. O espaço, que nasceu como um projeto de memória dos moradores das 16 comunidades da região, acabou ficando mais conhecido do que a própria ONG que o fundou, a CEASM (Centro de Estudos de Ações Solidárias da Maré). Segundo Luiz Antônio de Oliveira, um dos fundadores e atual diretor do Museu da Maré, o acervo do museu foi levantado por jovens da comunidade, que fizeram pesquisas em arquivos da cidade e entre os moradores. “O primeiro acervo de memória veio do arquivo da TV Maré, material datado de 1989. E até hoje os próprios moradores trazem objetos sejam para doação ou empréstimo.”

Oliveira orgulha-se em dizer que hoje conta com mais de 24 mil assinaturas no livro de visitas do museu, que quando surgiu, em 2006, foi desacreditado por alguns. “As pessoas discutiam na internet quem iria visitar um museu na favela. Diziam que queríamos glamourizar a favela enquanto estávamos aqui querendo que esses moradores se vissem representados e se identificassem com o seu local de habitação”, lembra Oliveira.

A Maré é um complexo com mais de 132 mil moradores e, apesar da visitação do museu ser majoritariamente de pessoas da comunidade (70%), “ainda falta falar mais com os moradores”. “Muitos estão por visitar o museu para saber que ele existe. Esse é o nosso maior desafio. Divulgar mais o espaço, mas com propostas. As crianças que vêm trazem os pais, mas chegar às escolas é um desafio. Temos várias facções do tráfico. Estudantes que poderiam vir a pé só vêm com ônibus.”

Além disso, simplesmente quebrar a resistência em torno da palavra “museu” entre os moradores foi um processo. “Antes de inaugurarmos, aqui era a Casa de Cultura da Maré. Aos poucos fomos chamando de museu, para quebrar uma certa resistência à ideia. Queríamos que as pessoas se identificassem, soubessem que esse é um espaço em que podem entrar para visitar, ver a loja, a exposição temporária e até brincar. Quando uma pessoa de periferia, que mora numa favela e vem de uma classe econômica mais baixa, passa por um museu de grande porte, famoso e tem dois seguranças vestidos de preto na porta, isso cria uma certa distância. Quando vêm aqui, eles entendem um pouco a ideia do museu como um espaço que pode ser apropriado.”

Para Oliveira, a resistência inicial do brasileiro faz parte do processo histórico da construção dos museus, que recebiam acervos particulares, falando de histórias de pessoas e momentos vitoriosos, que tinham uma limitação social. “Isso é histórico e vem de longa data. Temos um passivo histórico que museus como o da Maré contribuíram para esse processo. Servimos como exemplo para pessoas interessadas no programa de pontos de memória do Ibram.”

A chegada das Olimpíadas e da Copa ao Rio de Janeiro pode atrair um novo público ao museu, principalmente estrangeiros que querem entender as favelas brasileiras. “A expectativa é positiva, não só para a Maré, mas para outras comunidades que começam agora a construir seus pontos de memória. Além dos eventos esportivos, temos no Rio em 2013 o Encontro Internacional de Museus. A delegação que estava escolhendo as cidades passou por aqui, fomos considerados um ponto de referência para apresentar a cidade para a comissão internacional, o que nos deixou bem otimistas para os próximos anos.”

Museu do Homem do Nordeste

Localizado em Recife, o Museu do Homem do Nordeste é um dos mais conhecidos da região. Criado em 1979 pelo sociólogo Gilberto Freire, ele está ligado à Fundação Joaquim Nabuco e ao Ministério da Educação. “Vivemos principalmente das verbas federais que recebemos via fundação”, explica Vania Braymer, coordenadora geral do museu. “Acho que a máquina pública é muito pesada. Aprovar projetos e fazer esse dinheiro entrar é um desafio. Existem vários impedimentos devido a questões burocráticas que atrasam e dificultam esses projetos. A maioria acaba sendo financiada por recursos que a fundação arrecada direto no Ministério da Educação.”

O museu histórico-antropológico possui 15 mil peças, um acervo que conta a formação da sociedade do Nordeste do Brasil. O espaço recebe cerca de 2 mil visitantes por mês, sendo que 70% são estudantes. “Estamos implantando no museu um plano turístico para que as pessoas do Recife visitem os espaços culturais locais. Elas só vão a instituições museológicas de outras cidades, não da sua”, observa Braymer.

Quando questionada sobre a concentração dos museus nas regiões do Centro-Sul do país, Braymer é enfática em dizer que ainda prefere pensar mais em qualidade do que em quantidade. “O importante é primeiro qualificar o que temos. Nós passamos por um processo de revitalização e buscamos mais modernidade; as crianças estão acostumadas a um mundo tecnológico e interativo em casa e precisam ver isso também no museu”, ressalta. “É necessário se aproximar mais da população. Os museus precisam aceitar esse desafio de se tornarem agentes de desenvolvimento cultural e social.”

Fonte: Le Monde Diplomatique – http://diplomatique.uol.com.br/

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